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DOSVOX

Uma nova realidade educacional para Deficientes Visuais

Jos Antonio Borges
Projeto DOSVOX
Ncleo de Computao Eletrnica Universidade Federal do Rio de Janeiro


R E S U M O

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O isolamento cultural milenar das pessoas cegas pode ser muito diminudo com o uso de computador. Este artigo analisa o impacto do sistema DOSVOX, um ambiente operacional para pessoas cegas, sobre os problemas educacionais de deficientes visuais. O sistema DOSVOX hoje usado por mais de 2000 pessoas cegas em todo Brasil, que atravs dele podem editar textos em tinta e em Braille, ler jornais e livros, acessar a Internet, e realizar um nmero imenso de funes profissionais e de lazer atravs de um microcomputador, atingindo um nvel de independncia inimaginvel h muito pouco tempo atrs.

1. O que o Projeto DOSVOX

O Ncleo de Computao Eletrnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro vem nos ltimos anos se dedicando criao de um sistema de computao destinado a atender aos deficientes visuais. O sistema operacional DOSVOX permite que pessoas cegas utilizem um microcomputador comum (PC) para desempenhar uma srie de tarefas, adquirindo assim um nvel alto de independncia no estudo e no trabalho.

O DOSVOX um se comunica com o usurio atravs do uso de sintetizador de voz. O sistema conversa com o deficiente visual em Portugus, sem sotaque, e d a ele muitas facilidades que um usurio vidente tem, como um sistema de gerncia de arquivos adequado ao uso por D.V., editor e leitor de textos, impressor a tinta e em Braille, ampliador de telas para viso subnormal, diversos jogos, alm de programas para acesso a Internet. O DOSVOX d tambm suporte a operao de programas que no foram criados para cegos, atravs de adaptaes que permitem leitura sinttica de telas ou substituio de interaes bidimensionais ou cliques de mouse [HomePage, 96].

A maior diferena entre o DOSVOX e os muitos programas que existem no mercado internacional, voltados para auxlio ao D.V. reside no fato de que o DOSVOX no apenas uma casca de interface colocada sobre os programas convencionais, mas um ambiente operacional totalmente projetado com caractersticas de comunicao coerentes com as limitaes do cego [Pimentel, 97a]. Todo acesso feito pelo teclado, e o sistema de seleo por menus conduz o deficiente a uma operao com muito menos erros. interessante ver um cego operando o computador com muito mais rapidez com DOSVOX que um vidente usando o Windows [Pimentel, 97b].

2. O que muda na vida de um deficiente visual com a tecnologia de computao

A modificao das relaes entre deficiente visual e a cultura pode ser definida com uma nica frase: um cego agora pode escrever e ser lido e ler o que os outros escreveram. Explicando melhor:

a) a leitura e escrita das pessoas cegas, tradicionalmente, se faz atravs do mtodo Braille [IBC, 97]. Entretanto, rarssimas pessoas que enxergam conseguem ler ou escrever Braille (muito menos com fluncia). Isso isolava as pessoas cegas num gueto cultural: um cego s escrevia para outro cego ler.

b) ao precisar ler um texto com escrita convencional, era necessrio algum que traduzisse para Braille ou lesse o texto, provavelmente gravando em fita cassete.

c) embora uma pessoa cega pudesse escrever mquina, o resultado quase sempre era ruim, pois era muito difcil corrigir ou escrever um texto, parar e depois voltar a escrever.

A tecnologia de computao tornou possvel o rompimento dessas barreiras e muitas mais.

Com o uso de scanners, o cego pode ler escrita convencional (datilografada) diretamente.

Atravs da Internet, qualquer documento de qualquer parte do mundo pode ser transmitido com um mnimo de esforo e custo muito baixo, e traduzido para qualquer lngua. Desta forma, um texto do New York Times pode ser lido por um cego em portugus no mesmo momento em que o jornal sai nos Estados Unidos, em ingls, usando a tecnologia de traduo da web (ainda incipiente mas com rpido aperfeioamento).

Instrumentos eletrnicos podem ser conectados ao computador, e um cego consegue fazer arranjos orquestrais e imprimir partituras. Existem hoje inmeros cegos investindo pesado nesta rea [Wonder, 98].

Um cego pode desenhar, usando o computador.

Um texto grande em Braille demorava horas para ser criado manualmente. Hoje demora minutos com o uso de impressoras Braille.

Em sntese, o acesso cultura atinge nveis espantosamente melhores do que h poucos anos atrs.

3. O cego e a Internet

Talvez o subprojeto do DOSVOX que teve mais impacto foi o de acesso a Internet. Como de amplo conhecimento, a Internet se torna cada vez mais um veculo de comunicaes que transcende o aspecto de pura informao, e se expande para diverso e comrcio. Comprar pizza e ler piadas possvel pela Internet, bem como obter o horscopo dirio. A tendncia, na verdade, segundo muitos gurus de tecnologia, que em pouqussimo tempo, computador, aparelho de som e TV vo ser uma coisa nica.

Dados do projeto Intervox [Borges, 97] do o nmero de usurios cegos no Brasil, em Outubro de 1998 como mais de 500. As maiores aplicaes da Internet, que so hoje o correio eletrnico e o acesso World Wide Web (homepages), encontram nos cegos usurios com alto interresse. Esses usurios fazem acesso especialmente ao correio eletrnico, jornal dirio, diversos livros, cotao de algumas lojas de eletrodomsticos, artigos variados retirados da revista Veja, Isto e outras, levantamentos bibliogrficos e busca de produtos relativos a deficincia visual

Para a pessoa cega, a comunicao pela Internet especialmente importante por duas razes: a eliminao da necessidade da locomoo, que normalmente um entrave para o cego, e o fato de que do outro lado da Internet, ningum precisa realmente saber se o parceiro ou no cego. Assim, pelo menos numa comunicao inicial, a pessoa cega vista como uma pessoa no deficiente pelo parceiro.

4. O impacto do computador no ensino de deficientes visuais

a) no nvel de ensino superior ou ps-graduao

O nmero de estudantes de nvel superior que so deficientes visuais graves extremamente reduzido. Por exemplo, na UFRJ existem apenas 5 alunos cegos. Isso se deve a dois fatores: uma pessoa cega dificilmente consegue passar no vestibular, e uma vez passando, no encontra na universidade a infraestrutura necessria para seu desenvolvimento. A dificuldade ainda maior medida que que o grau de especializao aumenta. Falta a eles literatura especializada, equipamentos e monitoria especial. Essa situao veio a ser melhorada com a disponibilidade do computador, em especial do sistema DOSVOX.

Para o aluno deficiente visual na universidade, o computador absolutamente necessrio: o aluno pode fazer trabalhos e provas com o auxlio do computador; participar de trabalhos em grupo se torna possvel; a consulta a material bibliogrfico feito com scanner (para material impresso) e tambm via Internet. Atualmente a questo do vestibular tambm se torna menos complexa: algumas universidades j esto permitindo a execuo das provas, especialmente as de mltipla escolha e as discursivas de matrias em que a soluo pode ser expressa em texto corrido (portugus, histria, etc).

Nota: interessante notar, entretanto que mais de metade dos alunos prefere executar a prova em Braille: existe uma desconfiana de que o tempo necessrio para executar a prova no computador no ser suficiente ou que a leitura dos textos da prova, feitas pelo computador, no tero a clareza adequada. Durante o curso, entretanto, a escolha por provas em Braille quase nunca feita, especialmente por presso do professor, que no sabe Braille e no quer um trabalho extra...

A nvel de mestrado o problema idntico, apenas com pesos diferentes: aqui o acesso a Internet ganha um peso extra, em detrimento ao material impresso. O computador tambm ganha importncia na produo do material impresso de qualidade, que ser usado (ou servir de base) para a execuo da tese.

O impacto comea a ser sentido de forma sutil: hoje menos estudantes cegos abandonam a Universidade (na UFRJ nos ltimos 3 anos, ou seja, a partir da disponibilizao ampla do sistema DOSVOX, no houve abandono de curso por deficientes visuais). Embora no existe uma estatstica oficial, conversas com os professores de diversos departamentos nos sinalizam que o desempenho escolar dos deficientes visuais melhorou e a relao com os professores ficou mais simples: a aplicao e a correo de trabalhos e provas pode agora ser feita de forma quase idntica para alunos videntes e deficientes visuais. b) no nvel de ensino mdio

A grande dificuldade do aluno de nvel mdio cego o acesso aos livros didticos. Grande parte dos professores se utilizam exclusivamente do meio oral para transmisso de conhecimentos para os alunos e sua avaliao. A realizao de trabalhos escolares, feita em Braille, e corrigida por um professor que no sabe Braille, evitada. O resultado disso um aluno mal formado, com graves erros de escrita e, por praticamente no ler, um distanciamento cultural intenso.

Aqui, a possibilidade de transcrio rpida de textos se torna um item fundamental. Essa transcrio feita para Braille pelo prprio aluno ou algum familiar, ou para fita cassete, usando os servios gratuitos da maioria das instituies de cegos. Entretanto, a velocidade com que isso feito, quase nunca atende aos requisitos do estudante. O estudante se torna tambm dependente dos ledores voluntrios, em termos de estudo e at de convvio pessoal.

O uso do computador na casa do aluno pode minorar alguns dos problemas, em especial a feitura dos trabalhos escolares. Como a maior parte dos professores de nvel mdio j usa um computador para preparar as aulas e os exerccios, o disquete se torna o meio bidirecional de comunicao entre professor e aluno. Os trabalhos em grupo se tornam possveis, e o estudante cego, em alguns casos se torna mesmo o datilgrafo do grupo, utilizando o sistema DOSVOX. Eventualmente o texto datilografado no DOSVOX pode ser facilmente embelezado usando algum outro sistema de editorao eletrnica, sem prejuzo do contedo.

Embora o uso de scanner e de Internet sejam importantes, nossa observao de que isso ainda pouco explorado a nvel mdio, e a maior parte dos estudantes no utiliza, a no ser em casos especiais. A fita cassete continua sendo a forma mais efetiva de acesso a informao, em especial pela qualidade do som gerado ao vivo, no sinttico. Nossa sensao que isso deve mudar rapidamente, em virtude do barateamento dos equipamentos de scanning e de acesso a Internet, e com o aumento da qualidade do som gerado pelo computador.

Nota: Uma ao importante seria espalhar microcomputadores nas bibliotecas das pequenas cidades do interior, que, entre outras coisas, poderiam servir para as pessoas cegas terem acesso aos disquetes gerados nas bibliotecas das capitais.

c) no nvel de ensino fundamental

No ensino fundamental, a relao professor-aluno toma um carter de maior proximidade [Torres, 98]. O professor deve levar ao aluno o conhecimento, e muitos dos livros didticos so apenas cadernos de exerccios sofisticados, construdos quase sempre para atuar fortemente na motivao do estudante [Vigotski, 88]. Aqui, portanto, o papel do computador para os alunos deficientes visuais deve muito alm os objetivos de transcrio do nvel mdio. Deve atuar muito mais no nvel interativo e ldico do que no nvel de informao.

Entretanto, a maior parte dos programas que existem com este tipo de objetivo no so adequados para uso por deficientes visuais. Assim, boa parte do potencial do computador se perde: os professores, teoricamente poderiam produzir programas simples para os deficientes visuais, com uso de ferramentas simples (muitas delas gratuitas e disponveis junto com o sistema DOSVOX), mas no existe formao para tal nos cursos de pedagogia correntes. Desta forma, somos levados a afirmar que infelizmente o nmero de crianas que pode ter acesso pleno a todo potencial desta tecnologia pequeno.

Sentimos, porm, que existe um potencial imenso facilmente explorvel: colocar o estudante para ler e escrever com o computador. Incentiv-lo na escrita e leitura convencionais por computador (j que as brincadeiras ainda no esto disponveis como para crianas videntes), ser um item que preparar melhor o estudante para superar com tranquilidade as dificuldades que o esperaro nos nveis mais altos de estudo.

d) no processo de alfabetizao

Diversas dificuldades do processo de alfabetizao de crianas com graves problemas visuais decorrem de problemas mecnicos do mtodo de escrita manual com o mtodo Braille [IBC, 97]. Aqui se utiliza um estilete (puno), escrevendo-se de trs para diante no verso do papel. O manejo do puno exige fora e destreza e uma criana pequena tem dificuldades de adquirir o domnio da escrita.

Aqui, portanto, o computador pode ser usado para escrita com menos necessidade de habilidade. O teclado pode ser coberto (parcialmente, em geral) com adesivos com alguns cdigos Braille, de forma, quando a criana aperte uma tecla, ela sinta qual o cdigo Braille e o computador verbalize a tecla apertada, eventualmente associada a algum jogo didtico. Desta forma, a criana pode aprender a escrever e a ler, simultaneamente [Borges, 1998].

Nota: os dois jogos mais usados aqui so o Letravox e o Letrix. O primeiro associa cada letra teclada a uma historieta que tem relao com a letra em questo. O segundo ajuda na formao de palavras, sonorizando o que a criana teclar, e caso a palavra faa sentido, dando alguma resposta agradvel (em geral uma piadinha). No Letrix, o professor pode gravar novas piadinhas de acordo com o interesse da turma.

Alguns experimentos esto sendo feitos na Sociedade de Assistncia aos Cegos de Fortaleza e no Instituto Benjamin Constant. Os resultados preliminares demonstram diversas facetas interessantes: aumento no interesse da escrita; ligeira diminuio do tempo de alfabetizao; aumento da compreenso do resultado da juno de letras; desejo absoluto dos estudantes de voltarem para brincar em outra hora.

O mtodo usado sempre o de provocao dos alunos a descobrirem como o programa funciona, e no nas relaes didticas subjacentes. A provocao do tipo ser que voce consegue... ou eu acho que o computador vai explodir se voce... provocam sempre um clima de descoberta, que leva ao aprendizado com motivao [Vigotski, 88]. Experimentos em que os alunos foram deixados simplesmente no computador, sem uma orientao muito prxima, produziram resultados medocres, e desmotivao das crianas.

Os professores acabam aproveitando as descobertas dos alunos para dar uma motivao maior ao ensino de Braille, que muito beneficiado. A criana aprende a ler Braille, mesmo antes que seja capaz de escrever.

Nota: achamos que seria importante, ao usar o Letrix, de ter disponvel uma impressora Braille para produzir em papel as palavras criadas. Infelizmente isso nunca foi tentado nessas escolas, devido a problemas de alocao de recursos.

e) no ensino profissionalizante

Um dos objetivos mais importantes do ensino preparar a pessoa para o trabalho. No caso de deficientes visuais, existem diversas funes em que o computador pode ser um meio efetivo de obter emprego. Em reas como tele-marketing, prospeco de informaes, ensino distncia, e tantas outras, em que o uso da mente, do computador e do telefone so a base, e o registro e manipulao de informaes o objetivo, a pessoa cega consegue obter nveis muito adequados de desenvolvimento, que o permite, inclusive, concorrer com pessoas sem deficincias.

O problema aqui se situa em dois nveis: o treinamento conveniente (envolvendo outros itens alm do computador, como por exemplo, um excelente conhecimento da Lngua Portuguesa) e a aceitao das empresas. Pouco a pouco esses itens tem sido trabalhados, e hoje j existem mais de 120 pessoas no mbito Rio-So Paulo com trabalho envolvendo o uso direto do computador e telefone. Esse nmero tem-se expandido com rapidez, graas ao uso do DOSVOX, que por seu baixo custo, permite a uma empresa ou rgo pblico pensar no treinamento de um deficiente visual como um investimento e no como uma caridade [ODIA, 98].

5. Concluses

O impacto do sistema DOSVOX sobre a comunidade cega e deficiente visual tremendo, e pode ser facilmente avaliado pela imensa repercusso nos meios de comunicao e nas escolas especializadas. As principais vantagens do DOSVOX so sua simplicidade, custo e adequao realidade educacional dos deficientes visuais do Brasil.

O projeto DOSVOX uma cunha que abre novos espaos a uma parte importante da populao brasileira. Com o uso efetivo do sistema, adaptado s reais necessidades dos cegos do Brasil, mais um passo foi dado no sentido de tornar os deficientes visuais em elementos mais produtivos e melhor integrados sociedade.

Entretanto, ele apenas uma ferramenta [Pimentel, 97]. Para que ela possa ser efetivamente importante, necessrio a concretizao de muitas aes polticas e educacionais que permitam que ele seja aplicado ao maior nmero de deficientes visuais do nosso pas. Muitas delas j se iniciaram, em especial a nvel universitrio. Mas a maior parte delas envolve uma conscientizao maior por parte dos deficientes visuais e mais ainda, de seus professores.

Existem lgrimas que rolam pela face e outras que rolam pelo corao.

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