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John Wycliffe - Arauto da Reforma Protestante

John Wycliffe foi o arauto da Reforma...

No sculo XIV surgiu na Inglaterra um homem que devia ser considerado " a estrela da manh da Reforma Protestante ". John Wycliffe foi o arauto da Reforma, no somente para Inglaterra mas para toda a cristandade. O grande protesto contra Roma, que lhe foi dado proferir, jamais deveria silenciar. Aquele protesto abriu a luta que deveria resultar a emancipao de indivduos, igrejas e naes.

Wycliffe recebeu educao liberal, e para ele o temor do Senhor era o princpio da sabedoria. No colgio se distinguira pela fervorosa piedade bem como pelos seus talentos e perfeito preparo escolar. Em sua sede de saber procurava familiarizar-se com todo ramo de conhecimento. Foi educado na filosofia escolstica, nos cnones da Igreja e na lei civil, especialmente do seu prprio pas. Em seus trabalhos subseqentes evidencio-se o valor desses primeiros estudos. Um conhecimento proficiente da filosofia especulativa de seu tempo, habilitou-o a expor os erros dela; e, mediante o estudos das leis civis e eclesisticas, preparou-se para entrar na grande luta pela liberdade civil e religiosa. No s sabia manejar as armas tiradas da Palavra de Deus, mas tambm havia adquirido a disciplina intelectual das escolas e compreendia a ttica dos telogos escolsticos. O poder de seu gnio e a extenso e proficincia de seus conhecimento impunham o respeito de amigos bem como de inimigos. Seus adeptos viam com satisfao que seu heri ocupava lugar preeminente entre os espritos dirigentes da nao; e seus inimigos eram impedidos de lanar o desprezo causa da Reforma, exprobrando a ignorncia ou fraqueza do que a mantinha.

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Quando ainda no colgio, Wycliffe passou a estudar as Escrituras Sagradas. Naqueles primitivos tempos em que a Bblia existia apenas nas lnguas antigas, os eruditos habilitados a encontrar o caminho para a fonte da verdade, o qual se achava fechado as classes incultas. Assim j fora preparado o caminho para o trabalho futuro de Wycliffe como Reformador.

Semelhante aos reformadores posteriores, Wycliffe no previu, ao iniciar a sua obra, at onde ela o levaria. No se ops deliberadamente a Roma. A dedicao verdade, porm, no poderia seno lev-lo a conflito com a falsidade. Quanto mais claramente discernia os erros de papado, mais fervorosamente apresentava os ensinos da Escritura Sagrada. Via que Roma abandonara a palavra de Deus pela tradio humana; destemidamente acusava o sacerdcio de haver banido as Escrituras, e exigia que a Bblia fosse devolvida ao povo e de novo estabelecida sua autoridade na Igreja. Wycliffe era ensinador hbil e ardoroso, eloqente pregador, e sua vida diria era uma demonstrao das verdades que pregava. O conhecimento das Escrituras, a fora de seu raciocnio, a pureza de sua vida e sua coragem e integridade inflexveis conquistaram geral estima e confiana. Muitas pessoas se haviam tornado descontentes com sua f anterior, ao verem a iniqidade na Igreja de Roma, e saldaram com incontida alegria as verdades expostas por Wycliffe; mas os dirigentes papais encheram-se de raiva quando perceberam que ente reformador conquistava maior influncia que a deles mesmos.

Wycliffe comeou a escrever e publicar folhetos contra os frades, porm no tanto procurando entrar em discusso com eles como despertando o esprito do povo aos ensinos da Bblia e seu Autor. Ele declarava que o poder do perdo o excomunho no possua o papa em maior grau do que os sacerdotes comuns, e que ningum pode ser verdadeiramente excomungado a menos que primeiro haja trazido sobre si a condenao de Deus. De nenhuma outra maneira mais eficaz poderia ele ter empreendido a demolio da gigantesca estrutura de domnio espiritual e temporal que o papa erigira, e em que alma e corpo de milhes se achavam retidos em cativeiro.

De novo foi Wycliffe chamado para defender os direitos da coroa inglesa contra as usurpaes de Roma; e. sendo designado embaixador real, passou dois anos na Holanda, em conferncia com os emissrios de papa. Ali entrou em contato com eclesisticos da Frana, Itlia e Espanha, e teve oportunidade de devassar os bastidores, e informar-se de muitos fatos que lhe teriam permanecido em oculto na Inglaterra. Aprendeu muitas coisas que o orientariam em seus trabalhos posteriores. Naqueles representantes da corte papal lia ele o verdadeiro carter e objetivos da hierarquia. Voltou para Inglaterra a fim de repetir mais abertamente e com maior zelo seus ensinos anteriores, declarando que a cobia, o orgulho e o engano eram os deuses de Roma.

Os troves papais logo se desencadearam contra ele. Trs bulas foram expedidas para a Inglaterra : para universidade, para o rei e para os prelados, ordenando todas as medidas imediatas e decisivas para fazer silenciar o ensinador de heresias. Antes da chegada das bulas, porm, os bispos em seu zelo, intimaram Wycliffe a comparecer perante eles para o julgamento. Entretanto, dois dos mais poderosos prncipes do reino o acompanharam ao tribunal; e o povo, rodeando o edifcio e invadindo-o, intimidou de tal maneira os juzes que o processo foi temporariamente suspenso, sendo-lhe permitido ir-se em paz. Um pouco mais tarde faleceu Eduardo III, a quem em sua idade avanada os prelados estavam procurando influenciar contra o reformador, e o anterior protetor de Wycliffe tornou-se regente do reino.

Mas a chegada das bulas papais trazia para toda a Inglaterra a ordem peremptria de priso e o encarceramento do herege. Estas medidas indicavam de maneira direta a fogueira. Parecia certo que Wiclef logo deveria cair vtima da vingana de Roma. Mas aquele que declarou outra outrora para algum: " No temas ....Eu sou teu escudo " ( Gn 15:1 ), de novo estendeu a mo para proteger seu servo. A morte veio, no para o reformador, mas para o pontfice que lhe decretara destruio. Gregrio XI morreu, e dispersaram-se os eclesisticos que se haviam reunidos para o processo de Wiclef.

A providncia de Deus encaminhou ainda mais os acontecimentos para dar ainda mais oportunidade ao desenvolvimento da Reforma. A morte de Gregrio foi seguida da eleio de dois papas rivais. Dois poderes em conflito, cada um se dizendo infalvel, exigiam agora obedincia. Cada qual apelava para os fiis afim de o ajudarem a fazer guerra contra o outro, encarecendo suas exigncias com terrveis antemas contra os adversrios e promessas de recompensas no Cu aos que o apoiavam. Esta ocorrncia encareceu grandemente o poderio do papado. Crimes e escndalos inundavam a igreja. Nesse nterim, o reformador, no silencioso retiro de sua parquia de Luttreworth, estava trabalhando diligentemente para, dos papas contendores, dirigir os homens a Jesus, o Prncipe da paz.

Wycliffe, a exemplo de seu Mestre, pregou o evangelho aos pobres. No contente com s espalhar a luz nos lares humildes em sua parquia de Lutterworth, concluiu que ela deveria ser levada a todas as pastes da Inglaterra. Para realizar isso organizou um corpo de pregadores, homens simples e dedicados, que amavam a verdade e nada desejavam tanto como o propag-la. Estes homens iam por toda parte, ensinando nas praas, nas ruas das grandes cidades e nos atalhos do interior.

Como professor de teologia em Oxford, Wycliffe pregou a Palavra de Deus nos sales da universidade. To fielmente apresentava ele a verdade aos estudantes sob sua instruo, que recebeu o ttulo de " Doutor do Evangelho ". Mas a maior obra de sua vida deveria ser a traduo das Escrituras para a lngua inglesa. Num livro, exprimiu a inteno de traduzir a Bblia, de maneira que todos na Inglaterra pudessem ler, na lngua materna, as maravilhosas obras de Deus.

Subitamente, porm, interromperam-se as suas atividades. Posto que no tivesse ainda sessenta anos de idade, o trabalho incessante, o estudo e os assaltos dos inimigos haviam posto prova suas foras, tornando prematuramente velho. Foi atacado de perigosa enfermidade. A notcia disto proporcionou grande alegria aos frades. Pensavam ento que se arrependeria amargamente do mal que tinha feito Igreja e precipitaram a seu quarto para ouvir-lhe a confisso. Representantes das quatro ordens religiosas, com quatro oficias civis, reuniram-se ao redor do suposto moribundo. " Tendes a morte em vossos lbios, diziam; " comovei-vos com as vossas faltas, e retratai em nossa presena tudo o que dissestes para ofensa nossa ", continuavam . O reformador ouviu em silncio; mandou ento seu assistente levant-lo no leito e, olhando fixamente para eles enquanto permaneciam esperando a retratao, naquela voz firme e forte que tantas vezes os haviam feito tremer, disse: " No hei de morrer, mas viver, e novamente denunciar as ms aes dos frades " . Espantados e confundidos, saram os monges apressadamente do quarto. Cumpriram-se as palavras de Wycliffe. Viveu a fim de colocar nas mo de seus compatriotas a mais poderosa de todas as armas contra Roma, isto , dar-lhes a Escritura Sagrada, o meio de indicado pelo Cu para libertar, esclarecer e evangelizar o povo.

Conclui-se, por fim, o trabalho: a primeira traduo inglesa que j se fizera da Escritura Sagrada. A palavra de Deus estava aberta para a Inglaterra. O reformador no temia agora priso ou fogueira, Colocara nas mos do povo ingls uma luz que jamais se extinguiria. Dando a seus compatriotas, fizera mais no sentido de quebrar os grilhes da ignorncia e do vcio, mais para libertar e enobrecer seu pas, do que j se conseguira pelas mais brilhantes vitrias nos campos de batalha.

Novamente os chefes papais conspiraram para fazer silenciar a voz do reformador. Perante trs tribunais foi ele sucessivamente chamado a juzo, mas sem proveito. Primeiramente um snodo de bispos declarou herticos os seus escritos e, ganhando o jovem rei Ricardo II para seu lado, obtiveram um decreto real sentenciando priso todos os que professassem as doutrinas condenadas. Wycliffe apelou para o parlamento, que despertado pelos seus estmulos, repeliu o edito perseguidor. Porm , pela terceira vez foi chamado a julgamento, e agora perante o mais elevado tribunal eclesistico do reino. Mas Wycliffe, no se retratou. Destemidamente sustentou seus ensino e repeliu as acusaes de seus perseguidores. Sentiu-se o poder do Esprito Santo na sala do conclio. Os ouvintes ficaram como que fascinados. Pareciam como que no haver foras para deixar o local. Como setas da aljava do Senhor, as palavras do reformador penetravam-lhes a alma. Assim sendo, retirou-se da assemblia e nenhum do seus adversrios tentou impedi-lo.

A obra de Wycliffe estava quase terminada; a bandeira da verdade que durante tanto tempo empunhara, logo lhe deveria cair da mo; mas, uma vez mais, deveria ele dar testemunho do evangelho. A verdade devia ser proclamada do prprio reduto do reino do erro. Wycliffe foi chamado a julgamento perante o tribunal papal de Roma, o qual tantas vezes derramara o sangue dos santos. No ignorava o perigo que o ameaava; contudo, teria atendido chamada se um ataque de paralisia lhe no houvesse tornado impossvel efetuar a viagem. Mas, se bem que sua voz no devesse ser ouvida em Roma, poderia falar por carta, e isto se decidiu a fazer. De sua reitoria o reformador escreveu uma carta que, conquanto respeitosa nas expresses e crist no esprito, era incisiva censura pompa e orgulho da s papal. Wycliffe esperava plenamente que sua vida seria o preo de sua fidelidade. O rei, o papa e os bispos estavam reunidos para lev-lo a runa, e parecia certo que, quando muito, em alguns poucos meses o levariam fogueira. Mas Deus, em sua providncia, ainda escudou a seu servo. O homem que durante toda a vida permanecera ousadamente na defesa da verde, diariamente em perigo de vida, no deveria cair vtima do dio de seus adversrios. Wycliffe nunca procurara escudar-se a si mesmo, mas o Senhor lhe fora o protetor; e agora quando seus inimigos julgavam segura a presa, a mo de Deus o removeu para alm de seu alcance. Em sua igreja, em Lutterworth, na ocasio em que ia ministrar a comunho, caiu atacado de paralisia, e em pouco tempo rendeu a sua vida.

Wycliffe sara das trevas da Idade Mdia. Ningum havia que tivesse vivido antes dele, por meio de cuja obra pudesse modelar seu sistema de reforma. Suscitado como Joo Batista para cumprir uma misso especial, foi ele o arauto de uma nova era. Contudo, no sistema de verdade que apresentava, havia uma unidade e perfeio que os reformadores que o seguiram no excederam e alguns no atingiram, mesmo cem anos mais tarde. To amplo e profundo foi posto o fundamento, to firme e verdadeiro foi posto o arcabouo, que no foi necessrio serem reconstrudos pelos que depois dele vieram.

Existem lgrimas que rolam pela face e outras que rolam pelo corao.

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